O
artista plástico, José Cláudio, e o cantor, Alceu Valença, são os
ícones que recebem reverência da capital pernambucana no próximo
carnaval .
O
prefeito João da Costa anunciou na manhã desta quinta (1), os
homenageados do Carnaval Multicultural 2012. Dessa vez a Prefeitura
do Recife rende homenagem a dois ícones que abrilhantam a história
e a cultura da capital pernambucana: o músico Alceu Valença e o
artista plástico José Cláudio. As experiências de vida e o trabalho
desses dois nomes, que traduzem em sua arte a essência da cultura
pernambucana, são fatos que motivaram a Prefeitura da Cidade do
Recife a fazer essa justa homenagem.
O
anúncio contou com a presença do secretariado, funcionários e de
artistas como Claudionor Germano, Belo X, Ramos Silva. “As
obras dos dois por si só justifica a nossa escolha e essa
homenagem, pois revelam a beleza e a identidade do povo
pernambucano. Carnaval é a síntese da cultura dessa cidade e esses
dois artistas vão nos emprestar sua arte para enriquecer nossa
festa”, afirmou João da Costa.
Celebrar e reverenciar Alceu Valença e José
Cláudio é mais do que reconhecer o talento e a importância dos dois
artistas, trata-se de um presente para população que pode
aproximar-se um pouco mais destes dois mestres e conhecer melhor
suas obras. “Alceu Valença é um compositor responsável
por alguns dos maiores sucessos dos carnavais das últimas três
décadas. Ele carrega na sua música a alegria e espontaneidade que
são também a marca do nosso carnaval. E José Cláudio traz nos seus
traços as paisagens e o cotidiano da cidade, além de retratar
também as cores, fantasias e diversidade do carnaval. São duas
merecidas homenagens”, afirma o secretário de Cultura, Renato
L.
“Eu sempre gostei do carnaval, desde
criança, principalmente daquele carnaval de rua, com sol quente e a
sombra recortada no chão. Receber essa homenagem justamente no
carnaval é muito bom. É como se fosse um grande outdoor para o meu
trabalho, a cidade inteira vestida com minhas obras. Agradeço ao
prefeito por ter me escolhido”, disse José
Cláudio.
Alceu
Valença também agradeceu. “Eu vim muito cedo morar aqui e via
o carnaval passar na minha rua pela janela. Isso tudo foi entrando
em mim e o Recife foi me marcando de uma maneira muito especial. Eu
fui morar em outra cidade, e outro país, mas as minhas referências,
nunca esqueci.Fico lisonjeado e emocionado com tamanha
homenagem”, contou.
Desde
2001, a PCR destaca duas personalidades importantes para
reverenciar durante o Carnaval. A escolha dos nomes leva em
consideração a relevância dos seus trabalhos e a relação íntima dos
artistas com a capital pernambucana e com a festa de Momo. Os dois
últimos homenageados do Carnaval Multicultural foram a artista
plástica Tereza Costa Rego e o Maestro Duda.
JOSÉ CLÁUDIO
José
Cláudio da Silva nasceu em Ipojuca, Pernambuco, em 1932. Começou a
desenhar nos papéis de embrulho da loja de seu pai, Amaro Silva. Em
1952, interrompeu o curso de Direito, da Faculdade de Direito de
Recife, e ingressa no Atelier Coletivo, da Sociedade de Arte
Moderna do Recife, dirigido pelo escultor Abelardo da
Hora.
Na
Bahia, freqüentou ateliê de Mário Cravo e Caribé. Trabalhou com Di
Cavalcanti e Lívio Abhramo, em São Paulo, onde fez sua primeira
exposição individual: "Desenhos", Clube dos Artistas e Amigos da
Arte, 1956.
Em
1957 participa da IV Bienal de São Paulo, que lhe confere prêmio de
aquisição. Em 1975 pinta 100 óleos documentando aspectos da
Amazônia. Fez essa viagem pelo Rio Madeira a convite do zoólogo e
compositor Paulo Vanzolini, que costumava levar um artista em
excursões à Amazônia (hábito dos cientistas mais
antigos).
Um
dos desenhos da série sobre a Amazônia foi levado pelo zoólogo
americano Ronald Hayer para o Museum of Natural History, da
Smithsonian Instituiton, Washington. Os quadros foram adquiridos
pelo governador de São Paulo, Paulo Egydio, e se encontram hoje no
Palácio Bandeirantes.
Trabalhou na Bahia com Mário Cravo, Carybé e
Jenner Augusto; e em São Paulo com Di Cavalcanti. Estudou gravura
com Lívio Abramo na Escola de Artesanato do Museu de Arte Moderna
de São Paulo; Modelo Vivo e História da Arte na Academia de Belas
Artes de Roma, bolsista da Fundação Rotelini (Itália).
Lançou os livros Viagem de um jovem pintor à
Bahia e Ipojuca de Santo Cristo (1965), Bem dentro (1968); Meu pai
não viu minha glória (1995); e Os Dias de Ubá (inspirado no diário
de viagem ao Benin, África.
Em
1992, foi um dos dez artistas brasileiros eleitos por uma comissão
de críticos para fazer cartaz comemorativo dos 50 anos da chegada
da Coca-Cola ao Brasil: "Coca-Cola 50 anos com arte". Em 2004,
pintou um painel sobre festas populares de Pernambuco para o novo
Aeroporto dos Guararapes. Atualmente reside em Olinda.
ALCEU VALENÇA
Alceu
Paiva Valença nasceu em 1 de julho de 1946, em São Bento do Una, no
Agreste de Pernambuco. Nas cercanias da Fazenda Riachão, onde foi
criado, travou contato com a cultura dos cordelistas, emboladores
de coco, aboiadores, cegos cantadores de feira, tocadores de forró,
baião, xote e demais gêneros que compõem a identidade musical e
poética do Agreste e do Sertão.
Aos
oito anos, mudou-se com a família para a Rua dos Palmares, no
Recife, e ali viu descortinar-se diante de seus olhos e ouvidos uma
cultura diversa daquela adquirida em sua São Bento natal, mas tão
pernambucana quanto a primeira. Foi então que absorveu as
influências do frevo, do maracatu, dos caboclinhos, da ciranda, da
poesia de Ascenso Ferreira e Carlos Penna Filho, dos programas de
auditório que frequentava assiduamente - e também do cinema e da
política.
Adolescente, atuou como jogador de basquete dos
juvenis do Clube Náutico Capibaribe, entrou para a Faculdade de
Direito do Recife, passou um período na Universidade de Harvard
(EUA), trabalhou como redator em sucursais de jornais e revistas,
teve seus primeiros poemas publicados nos cadernos literários do
Jornal do Commercio e do Diario de Pernambuco.
Assumiu a música como ofício ao classificar três
composições na fase eliminatória do Festival Internacional da
Canção (F.I.C.), promovido, em 1970, pela TV Globo. Mudou-se para o
Rio, onde formou o grupo Os Pernambucanos, ao lado de Geraldo
Azevedo e Paulo Guimarães, que posteriormente virou uma dupla:
Alceu e Geraldinho. Unindo composições de um e de outro –
além de parcerias como “Talismã” – o duo lança
seu primeiro disco em 1972, com respaldo da crítica e pouco
conhecimento do público. A embolada “Papagaio do
Futuro” é classificada no F.I.C. e defendida, no
Maracanãzinho, por Alceu, Geraldo e Jackson do Pandeiro.
Dois
anos depois, Alceu participa como ator do filme “A Noite do
Espantalho”, de Sérgio Ricardo. Foi um impulso decisivo para
que o cantor (que interpretava o próprio Espantalho) ganhasse maior
visibilidade nacional. Na esteira do êxito cinematográfico, grava
seu primeiro álbum solo, “Molhado de Suor”
(1974).
Em
1975, Alceu se apresenta no Festival Abertura, da TV Globo, com
“Vou Danado Pra Catende”. Ao lado de figuras hoje
lendárias da contracultura pernambucana – Lula Côrtes, Zé
Ramalho, Paulo Rafael e Zé da Flauta, entre eles – a mistura
de rock com ritmos agrestinos promovida pela trupe surpreende o
público e o júri, que resolve criar, na hora, a categoria Melhor
Pesquisa, para contemplá-los.
O
cantor gravaria mais dois álbuns na década de 70, radicalizando o
experimentalismo apresentado no Festival Abertura:
“Vivo” (1976) e “Espelho Cristalino”
(1977), até hoje citados entre seus melhores trabalhos. Em 1978,
percorre o país ao lado do mestre Jackson do Pandeiro no Projeto
Pixinguinha. Aclamado pelos críticos, mas ainda distante do
sucesso, Alceu decide passar uma temporada em Paris, que seria
determinante para os rumos de sua carreira.
Na
França, Alceu grava o até hoje inédito “Saudades de
Pernambuco”, que representa um mergulho em suas raízes e
estabelecia, parcialmente, as diretrizes que o consagrariam na
década seguinte. Ainda na capital francesa, compõe uma música
inspirada em Jackson do Pandeiro: “Coração Bobo”, que
se tornaria um sucesso estrondoso, a partir de 1980.
É o
momento da afirmação nacional de Alceu. De volta ao Brasil,
enfileira sucessos em álbuns como “Coração Bobo”
(1980), “Cinco Sentidos” (1981), “Cavalo de
Pau” (1982) e “Anjo Avesso” (1983) – todos
com mais de 1 milhão de cópias vendidas. Músicas como
“Tropicana”, “Anunciação”, “Como Dois
Animais”, “Pelas Ruas Que Andei” e “Cabelo
No Pente” tomam as rádios e o coração do povo em todo o
país.
Neste
período, Alceu dá prosseguimento à sua carreira internacional
– iniciada timidamente na França. É aclamado no Festival de
Montreux (onde voltaria em outras cinco oportunidades) e no
Carneggie Hall, em Nova York. Em 1985, participa pela primeira vez
do Rock in Rio. No mesmo ano lança “Estação da Luz”,
que sucede “Mágico” (1984) e antecipa
“Rubi” (1986) e “Leque Moleque”
(1987).
Na
década seguinte, flerta com o blues no álbum “Andar
Andar” (1990) e ratifica a ponte entre os sons do Nordeste e
o pop internacional em “Sete Desejos” (1991) e
“Maracatus, Batuques e Ladeiras” (1994). Seu show no
Rock in Rio II é considerado o melhor do festival por um júri
internacional de críticos e especialistas.
Junta-se aos parceiros de geração Elba Ramalho,
Zé Ramalho e Geraldo Azevedo para realizarem – no palco e em
disco ao vivo - o bem-sucedido “O Grande Encontro”
(1996), até hoje uma das reuniões mais festejadas da música
brasileira. Revisita sua própria trajetória no disco “Sol e
Chuva” (1997) e promove um regresso às raízes em “Forró
de Todos os Tempos” (1998) e “Forró Lunar”
(2001), reverenciados pela turma universitária que redescobriu o
forró no final dos anos 90.
Sintonizado com as novas formas de distribuição
de discos e com os selos independentes que proliferam no período,
Alceu lança “De Janeiro a Janeiro” (2002) nas bancas de
todo o país, mesmo ano em que realiza seu primeiro DVD –
“Ao Vivo em Todos os Sentidos”, recorde de público da
Fundição Progresso, no Rio. Uma renovada safra de grandes canções
pontua o álbum “Na Embolada do Tempo” que propicia seu
retorno, em grande estilo, à programação das FMs.
Em
2006, leva 150 mil pessoas ao Recife antigo para a gravação de um
novo DVD: “Marco Zero ao Vivo” é uma ode ao carnaval
com frevos, maracatus, caboclinhos e cirandas que ratificam Alceu
Valença como a principal voz da identidade pernambucana. No álbum
“Ciranda Mourisca” (2009), revisita músicas menos
conhecidas de sua obra, em versões acústicas, com leve toque
oriental.
Homenageado do carnaval de 2012, pela Prefeitura
de Recife, Alceu prepara o lançamento de um novo disco, totalmente
dedicado ao frevo. Ainda este ano, chega às telas seu primeiro
filme, “A Luneta do Tempo”, onde estreia como autor e
diretor de cinema. Em sua múltipla e atemporal embolada, Alceu
segue se reinventando.
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